Não é fácil, hoje, perceber que a vigília pascal seja a mãe de todas as vigílias. Onde estão as filhas? Uma vez não é costume. A Igreja nasceu de noite e não há como a noite para se perceber o valor da Luz. Mas a nossa pastoral litúrgica ainda não reencontrou a noite como alto lugar e tempo privilegiado para a oração e para a celebração, tempo livre e gratuito para o repouso. A quase exclusividade da celebração diurna revela todo o contrassenso das velas acesas em pleno dia, à maneira de Diógenes, de candeia acesa à luz do sol, à procura dum Homem… Passadas as grandes perseguições e ganha a paz romana [constantiniana!], a celebração diurna foi uma conquista e… uma tentação.
Em meio mundo onde somos perseguidos e/ou controlados, desde a Checoslováquia ao Vietname, a assembleia e a celebração noturna voltaram a ser e a fazer a verdade da Igreja. No outro meio mundo onde somos rodeados pela indiferença — indiferença religiosa como se diz — a luz diurna não facilita a nossa credibilidade nem consegue caracterizar a nossa verdade. Será que é preciso voltar a fazer o elogio da Noite? Ou será que o dia não ajuda o retrato das nossas manifestações de Fé?
A renovação litúrgica começou por onde devia começar: pela Páscoa, sobretudo pelo tríduo pascal, muito especialmente pela vigília pascal. Mas não foi muito longe. A liberdade eucarística dada de mão beijada por Pio XII e por João XXIII, que nos libertaram dos condicionalismos do jejum e do relógio, acabou por ser ruinosa pois ‘inflacionou’ a Missa a tal ponto que o bispo da Igreja do Porto, há uns tempos para cá, repetidamente nos tem manifestado a sua preocupação relativamente ao ‘abuso das missas’. Apesar de serem cada vez mais caras [ou talvez até por isso], cada vez se rezam mais missas. Parece que na igreja já não há lugar para mais nada, a não ser para as missas, quase todas de mortos, pelos mortos. O culto dos mortos assenhoreou-se da Missa e nem o Domingo “pro populo” escapou. E contudo, pastoralmente, poderia ser muito edificante a memória daqueles que “adormeceram no Senhor”, se o espiritismo de raiz que move a religiosidade do Noroeste não lhe anulasse o interesse e a eficácia eclesial.
A gratuidade da vigília e da autêntica oração faz da velada pascal o modelo do que poderiam e deveriam ser todas as outras orações e celebrações da igreja. O problema é que sem a Assembleia não há vigília pascal, razão por que muitas paróquias não a podem celebrar. Parece que não são poucas as paróquias portuguesas que não celebram a vigília pascal. De facto, sem assembleias não o podem fazer, não o devem fazer. Como escreveu S. Jerónimo, “não é a festa que cria a assembleia, mas — ao contrário — a assembleia que cria a festa” [P.L. 54, col. 669]. Mas o que faz essencialmente a vigília pascal é a ação e a celebração da Palavra, com a salmodia e a oração. Nesta noite, só a Missa não passaria de mais uma missa, coisa que todo o ano é o espetáculo que damos e fazemos, rezadores de missas e assistentes de missas, missa para tudo e missa para nada.
Às portas das igrejas, por vezes ao lado das tabuletas da Junta Autónoma das Estradas, lá está o horário das missas. Nunca se vê um horário de Oração, pois de facto nas nossas igrejas já não se faz Oração, nem a reza do Terço sequer, nós que éramos tão devotos do Terço!… O Terço não é uma oração litúrgica, mas apesar de tudo era alguma oração. Mas nem isso já. Porquê? A explicação é fácil. Na Igreja já não damos lugar à gratuidade. Mas isso é uma monstruosidade! A Eucaristia não é, por definição, ação de graças? É Ação de Graças, só que custa dinheiro, o que custa dinheiro é que tem valor, o que se ‘encomenda’ é o que se recomenda… Por outro lado, a Missa mete no céu as almas e a Palavra, com a Oração, não consegue juntar as almas destes ‘celtas’ que nós somos… Além disso, a Missa o padre arruma-a, ao passo que a Palavra e a Oração exigem uma preparação, uma participação e uma série de ‘instrumentos’ que são poucas as comunidades que o conseguem. Mas na Missa não há a Palavra? A missa não é oração? Sim… e não. A Missa é uma ‘peça’ preciosa dum conjunto que a prepara e a continua, a projeta. Sem o conjunto, o melhor perde-se e degrada-se irremediavelmente, à semelhança do que acontece com a vida duma família que tem na mesa o melhor tempo do dia a dia, mas que — sem o resto — se reduziria a um restaurante.
Liturgia das Horas, onde estás? Desde que passaste ao ‘breviário’ dos padres, nunca mais te encontramos. Desde que te perdemos, nunca mais vimos a Oração da Igreja; e perdemos a salmodia, as litanias, as preces, as assembleias fraternas… e a gratuidade. Desde que te perdemos, adeus vigílias e noturnos, adeus beleza e poesia, adeus graça, música e canto, adeus lucernários das nossas antigas noites em que nos fizemos e dissemos. Mas, desde que te perdemos, nenhum de nós se resigna às missas do nosso descontentamento, do nosso tédio…


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 65 | Voz Portucalense, 16 de abril de 1987