O emprego e o uso das noções de natureza e de pessoa em relação ao mistério de Deus, revelado em Jesus Cristo, é analógico: uma analogia. Se lhes dermos, quando falamos da Santíssima Trindade, o sentido que aquelas palavras têm no uso e na linguagem corrente, expomo-nos a graves erros e a autênticas heresias. Infelizmente é muito vulgar essa ‘grosseria teológica’ que assimila à nossa Trindade as trindades das religiões pagas. É preciso muito cuidado e muita atenção, doutra forma descambamos rapidamente, quanto à linguagem e até quanto ao conteúdo, no politeísmo. Anda por aí, em meios muito piedosos, uma autêntica ‘verborreia religiosa’, exageros de culto e insuficiências de cultura teológica que nos tornam ridículos aos nossos próprios olhos, sem contar com os olhos dos outros, já demasiado habituados ao espetáculo muito pouco decente que, de há uns tempos para cá, andamos a dar. Antigamente a hierarquia da Igreja era mais rigorosa, pelo menos ela. Agora, muitas vezes, aqui e acolá, levada talvez por um certo desespero pastoral, ela própria utiliza uma linguagem piedosa, desabrida e desbocada. Quebra de nível teológico? Arrasto da religião popular? Qualquer dia até Santa Maria é ‘hipostasiada’, feita uma quarta ‘pessoa’ da Santíssima Trindade! Em muita prática piedosa já o é, por uma certa piedade sentimentalista e encomiástica. Os ignorantes já não escapam à confusão de pensarem que ‘Nossa Senhora’ é o feminino de ‘Nosso Senhor’. Não escapam a essa confusão nem ao antropomorfismo que faz do Pai um velho — o ‘Padre Eterno’. Quanto ao Espírito Santo as expressões populares de culto, não andam longe da zoolatria ou da gastrolatria… No meio deste ‘olimpo’, Jesus Cristo é uma confusão incarnada. Quem, ao insistir na humanidade de Cristo, não sentiu tantas vezes uma reação surda ou até indignação expressa da parte de tantos fiéis?
É urgente voltarmos à ‘sã doutrina’ e à linguagem sóbria dos concílios. É muito urgente retomarmos o único meio no qual e pelo qual conhecemos o Pai e recebemos o Espírito Santo. É a boa Tradição, ortodoxia e ortopraxis, “lex orandi, lex credendi”, regra de orar que é regra de acreditar: “Per Christum in Spiritu Sancto ad Patrem”. O que nós conhecemos é o homem Jesus. É por Ele, com Ele e n’Ele, que nós conhecemos o Verbo de Deus, que nos foi dirigido. Deus dirigiu-nos a palavra, a sua palavra no Verbo que se fez Carne, no Filho do Homem. Esta relação é fundamental. Não conhecemos o Verbo de Deus em si — “in se”. Não conhecemos a Trindade em si [“in se”], mas em relação a nós [“quo ad nos”]. Em Cristo, por Ele e n’Ele, somos relacionados com Deus, que se revela a si próprio nas relações que estabeleceu connosco. Revela-se como Pai e como ‘íntimo’ a nós no Espírito Santo “derramado em nossos corações”. Jesus veio até nós “como Filho Único do Deus Único”. Nesta abertura se revela e nos revela o Desígnio sobre nós e o nosso futuro.
O conhecimento analógico não é um falso conhecimento, mas o nosso modo de conhecer todas as coisas. Só que este acesso a Deus, acesso de Deus, não nos permite ter Deus na mão, muito menos mandar o Pai para as nuvens, meter o Espírito Santo num bolso e trazer o Filho ao pescoço… É uma relação. São relações, diz São Tomás de Aquino, que teve tempo e sossego para se distanciar das querelas trinitárias bizantinas e para escapar à cilada das palavras ambíguas que entre os Gregos dizem uma coisa e entre os Latinos dizem o contrário, o que tanto atrapalhou Santo Agostinho.
Quando um homem dirige a sua palavra a outro homem estabelece uma relação. E se esse homem na palavra que dirige se entrega, marca interiormente no outro uma relação de amizade e de confiança. Deus dirigiu-nos o seu Verbo e marcou-nos indelevelmente com o seu Espírito que “derramou em nossos corações”. Por Cristo, com Ele e n’Ele entramos nas relações de Deus, e possuímos agora as melhores relações. Porque em Deus tudo é substancial e nada é acidental, sabemos pela inteligência da Fé que são autênticas relações, que correspondem à verdade de Deus, apesar de as conhecermos em relação a nós. Mas todo o nosso conhecimento é por Cristo, com Cristo e em Cristo, pelo homem Jesus. Não conhecemos Deus em abstrato. Não há teologia abstrata. Ninguém pode abstrair Jesus, nem a sua humanidade. Foi o erro de Ario e dos antiarianos heréticos, de facto pelas mesmas razões, todos grandes defensores de Deus e do sagrado… Contradição gritante — os extremos tocam-se sempre — em manter as distâncias entre Deus e os Homens. De facto, é mais difícil acreditar na humanidade de Jesus do que na sua divindade. Sempre foi assim. É mais fácil acreditar nos poderosos do que nos pequenos. Está à vista hoje mais do que ontem: é mais difícil acreditar no Homem, no desígnio de Deus sobre o Homem, “pedra rejeitada pelos construtores”.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 71 | Voz Portucalense, 11 de junho de 1987
Pintura: Andrei Rublev [c.1360-c.1430] | ‘Trindade’ [1411 ou 1425-1427]