Como é que de uma Igreja de santos nos tornamos uma Igreja de pecadores? Como é que de uma Igreja de gente de pé nos tornamos uma Igreja de gente de joelhos? Como é que duma Igreja de irmãos nos tornamos uma Igreja de padres? Como é que duma Igreja de batizados nos tornamos uma Igreja de leigos? Se queremos levar a sério a renovação conciliar do Vaticano II, temos de perceber toda esta história. Se queremos criar tempos, lugares e formas de reencontro em-Cristo e na-Igreja, não podemos mais oscilar entre os passos a dar a partir das Fontes de toda a nossa renovação e inspiração, e a conservação das ruínas e do pó que conserva as ruínas de tantas construções provisórias, doutros tempos, doutras formas e doutros lugares. Depois de tudo, o resultado de tudo é tudo. Maravilhosa Igreja que soube sempre fazer os balanços do que resultou e do que não resultou. A disciplina penitencial é o seu retrato mais fiel, até nas suas obscuridades históricas, pois a Igreja — no capítulo da Penitência — soube criar, mudar, modificar, corrigir e adaptar, e de tal maneira que os ‘pedúnculos’ de todas as modificações penitenciais e de toda a evolução da disciplina penitencial se perderam nos passos dados, como é da lei de toda a boa evolução. Quer isto dizer que acompanhou a vida, que nunca largou a vida. Não é agora que vai deixar de o fazer, apesar de conservadores e restauradores, apesar de amnésicos e modernistas…
O confessionário resultou e foi um bom resultado de toda a evolução penitencial, apesar de muitas confissões mal feitas e de muitos confessores e confessados mal amanhados!… O confessionário é um espaço aberto, uma porta aberta, que ninguém fechará mais. Espaço que, pela sua natureza e evolução, nunca mais será obrigado e, por isso, nunca mais será sujeito a desobrigas. Espaço livre, desde a chegada à partida. O penitente tem toda a iniciativa, livre iniciativa, nunca mais sujeita a controlo, pois a fase do infantilismo passou e o paternalismo não tem mais lugar.
O confessionário é um lugar muito pouco comunitário? Sê-lo-á se a Penitencia se reduzir ao confessionário e se as fontes da Penitência não se procurarem no Batismo, e se a Reconciliação dos Penitentes não encontrar o seu lugar na Assembleia, na Comunidade. É que há e haverá penitentes e penitentes. O que é preciso é que ninguém se perca na Igreja, seja por ser muito grande ou por ser muito apertada. Há penitentes que, sem um percurso penitencial, ainda que se confessem muitas vezes, não terão saída e dificilmente reencontrarão a ‘comunhão’. Durante o ano, sobretudo chegada a Quaresma, num Grupo de Penitência, eles encontrarão o lugar, a forma e o método, e a conclusão sacramental da Reconciliação. Há outros penitentes, cristãos sujeitos a acidentes de percurso, para quem o confessionário — sem mais esperas — será o lugar do reencontro. Mas é indispensável que um verdadeiro penitente, desejoso e necessitado de uma verdadeira penitência, encontre um verdadeiro confessionário com um verdadeiro confessor, capaz de ouvir ‘confissões’, com o ‘dom’ de aconselhar, coisa para a qual nem todos os padres estão preparados, como — aliás — era de boa norma antigamente, pois nem todos os padres tinham ‘jurisdição’ para confessar.
A Igreja, a determinada altura, tomou posição contra os ‘eternos catecúmenos’, gente que adiava sistematicamente o Batismo, ou porque não se julgavam nunca dignos, ou porque sonhavam com o batismo à hora da morte, passaporte automático e infalível para o Paraíso. Houve igrejas em que o número de catecúmenos chegou a ultrapassar de longe a assembleia dos batizados. Não será que a igreja precisa de tomar posição contra os ‘eternos penitentes’ que sobrecarregam a já pouca disponibilidade pastoral dos seus ministros? Há quem ache que não e considere que, por estes dias, os Cristãos confessam-se muito pouco e que estamos a assistir a um abandono da Confissão. Se este abandono — ou ‘deserção’ — quer dizer que as comunidades descobriram que o estado-de-Graça é o estado normal da vida dos cristãos, pode haver uma menor prática ou uso da Confissão, mas não é um sinal negativo. O que parece é que os abusos do confessionário [abuso quer dizer mais uso] degradaram a confissão a tal ponto, que há desafectação de facto. Confissões inúteis e falsas confissões não são coisa que ajude a olhar o confessionário como um lugar de libertação. De qualquer forma, a vida da Igreja é suficientemente rica em lugares, tempos e formas, para não se reduzir a isto ou àquilo.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 64 | Voz Portucalense, 2 de abril de 1987
Pintura: Conversão no caminho de Damasco [pormenor] | Caravaggio