Ainda não são as Confissões da Igreja que está em Portugal. São apenas alguns sinais de mudança, quase a primeira confissão humilde dos seus pecados históricos e insuficiências da hora. Vêm em boa altura. Os resultados da sondagem do ‘Expresso’ sobre a influência da Igreja na nossa pátria, só espantam na medida em que não sabíamos que a opinião pública tinha de nós um conhecimento tão divertido. Para uma grande influência, como a maioria reconheceu, o facto de ser nem boa nem má não é mau de todo — é o pior possível. Até parece que o Espírito Santo se serviu da sondagem dum semanário para dizer à Igreja dos portugueses o que disse à igreja de Laodiceia: “Eu conheço a tua conduta: tu não és fria nem quente…” [Apocalipse 3, 15]. Foi generoso o julgamento sobre Portugal, declarado em-estado-de-Evangelização. Foi generoso, digam o que disserem as más-línguas, que o explicam por uma perda de influência. A Igreja aqui não teme uma perda de influência, pois continua a ser grande, como o reconhece a sondagem referida. Mas a preocupação evangelizadora pôs a nu uma questão fundamental. Que Igreja vai evangelizar? Só uma Igreja convertida ou em-estado-de-Conversão pode evangelizar seriamente e com eficácia. Não precisamos de ter em Portugal uma maior Influência — ela já é grande! Precisamos de ter em Portugal uma boa influência. A Evangelização exige a Conversão. Igreja humilde, há tanto tempo que te esperávamos!…
Missões trazem confissões, atos de conversão e profissões de Fé. Esta ainda não será a Quaresma histórica, que renovará da cabeça ao coração as comunidades da Igreja, pois uma missão que arrasta a conversão dos próprios missionários não se improvisa. Mas os sinais não enganam. Os sinais da humildade são sempre verdadeiros. O que se passa nestes dias na Igreja dos Portugueses, para além de passos alguns e de algumas vozes, só é perceptível em panorama a alguns olhares perseverantes que, contra tudo e contra todos, esperavam. Já não se trata daquela agitação vivida nos anos sessenta [do Concílio] e nos anos setenta [das nossas mudanças abrilinas]. O que mais impressiona os olhos quase gastos, de quem teimava na Esperança, é que a metanoia se está a processar numa paz incrível. São propósitos, são julgamentos e alguns projetos, não precisamente aqui ou acolá, mas uma suave aragem que perpassa entre comunidades e pessoas, bispos, padres e leigos, quase um lento acordar mais que um súbito estremecer. É um facto que os sinos continuam a badalar, pomposos discursos e ruídos amargos-doces duma beatice untuosa laico-clerical, mais preocupada com as aparências do que com as transparências… Mas, na própria Igreja, ninguém já acredita nisso. Todos sentimos que, digamos o que dissermos aos portugueses, em termos de verdade e de justiça, isso nos fere infinitamente mais a nós, católicos portugueses.
Sim, também o Concílio passou por aqui. Não só o Concílio, mas, antes dele, muitos atos e atas que não constam porque não se conhecem. História da Igreja que está em Portugal, precisamos de te conhecer para nos conhecermos! Doutra forma, não chegaremos a descobrir como pode o Cristo passar entre nós, se não soubermos como chegou até nós e como entre nós foi tratado. Pode parecer incrível, mas, de facto, há uma História da Igreja em Portugal que não começou com D. Afonso Henriques e que, apesar dos afonsinos [e com eles], está carregada de atos e atas dos Apóstolos. Houve a Inquisição. Temos de a conhecer, pois, apesar de conter a maior iniquidade jamais cometida por nós, não podemos esquecer que é ‘cosa nostra’. Os nossos pecados também nos pertencem; por maiores que sejam, são nossos. Há a Inquisição e muitas outras coisas instrutivas. Se tirássemos ao Antigo Testamento os pecados do Povo de Deus, ele ficaria reduzido a meia dúzia de páginas. E, contudo, o Apóstolo diz que “tudo quanto foi escrito, o foi para nossa instrução”. Será que nos dias do Novo Testamento, por causa da Graça, os pecados já não são instrutivos? Pelo contrário: “onde abunda o Pecado, aí sobreabundará a Graça!”. É preciso voltar a ler a Carta aos Romanos, libertada, enfim, das falsas questões da Reforma e da Contra-Reforma. Apesar das legendas e das histórias edificantes com que nos adormeceram neste país, e apesar das histórias chocantes com que a propaganda jacobina alimentou a ‘intelligentsia’ portuguesa, há uma História da Igreja em Portugal séria e honesta feita e a fazer-se por especialistas honestos, e que nos fornecerá materiais suficientes para uma leitura não materialista.
E se outra Igreja, próxima da nossa, pudesse ser para nós causa de conforto e coragem, aí está a Igreja dos Brasileiros, quase irreconhecível aos olhos de quem a conheceu há uns vinte ou trinta anos. A Igreja filha mais velha da Igreja que está em Portugal, aí está com a conscientização a dizer-nos que nunca é tarde de mais para nos convertermos e nos confessarmos!


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 16 | Voz Portucalense, 20 de fevereiro de 1986

Pintura: “Campo de trigo com corvos” [1890] | Vincent van Gogh [1853–1890]