Quem de nós quando jovem e mesmo depois quando velho, mais velho, não ouviu a voz do Século, na boca das falsas aceitações, apresentar-nos e ou presentear-nos com esta distinção: “Este é um padre moderno”? Confesso que sempre que ouvi este elogio o recebi como um insulto… apesar de tantas vezes me ter calado por perceber com clareza a intenção de quem mo dirigia. Somos padres modernos ou somos padres atuais? Isto é, do nosso tempo, para este tempo, discípulos desta hora, nossa hora, ainda que seja a hora da crise, século-de-todas-as-crises, 25.ª Hora. Não ‘à la page’. Não ‘à la carte’. Não fugindo do Mundo, mas plenamente no Mundo, sem ser do Mundo. Percebendo do Mundo mais do que qualquer mundano, conhecendo o Século mais do que qualquer secular, mas livres face ao mundo como qualquer cristão que não abdica da sua liberdade de filho de Deus. Não como gente que corre atrás de qualquer novidade, mas como portadores da maior novidade desde a criação do Mundo. Entusiasmados com tudo o que no Mundo se produz de bom, de verdadeiro e de belo, mas tudo referindo ao resultado de tudo, aquilo que no fim será tudo, depois de tudo. Mas não se deixando enganar pela Vaidade que tudo corrompe, que tudo ameaça, que tudo põe em perigo.
Desde o meu curso de Teologia que me sinto devorado pelo desejo de tudo saber, o que se passa, o que se pensa, o que se diz. Foi a Teologia que me despertou para o Mundo, e desde então abri todas as janelas que pude apesar de viver num pequeno país periférico e numa Igreja de trazer por casa, Igreja que está em Portugal e que nunca desprezei mas a que nunca me limitei, Igreja que amei com o maior amor que tenho para lhe dar, mas por quem nunca me deixei domesticar. Digo-o sem sombra de orgulho. Digo-o com todo o respeito que ela me merece e lhe tenho, tanto quanto ela é uma porção viva da única Igreja em que acredito: a Una e Santa, Católica e Apostólica. Podia e pode estar doente, decadente, estagnada, mas enquanto estiver viva é a presença próxima e íntima, tocável e concreta do Corpo de Cristo. Igreja que estás em Portugal, não suporto que digam mal de ti, venha de quem vier o insulto ou a zombaria, de Fernando Pessoa ou Saramago. O sarcasmo com que nesta pequena província da Europa a Igreja é perseguida, fere-me desde a minha infância, desde as minhas primeiras leituras de Camilo ou Eça, grandes ledores de Renan, os nossos epígonos de Voltaire. Mas, voltando ao Seminário, pois sem ele não me consigo explicar, apesar do mal que me fez e do bem que me deu, tenho que dizer que foi ali que descobri a liberdade dos filhos de Deus e da qual depois nunca mais abdiquei por direito próprio, batismal, crismal e eucarístico, e depois, indelevelmente presbiteral. O que sempre me valeu, apesar de qualquer coisa que depois aconteceu comigo e à minha volta, foi essa consciência da liberdade dos filhos de Deus e da nossa dignidade presbiteral tão maltratada, tão diminuída, tão reduzida.
Muita água correu sob as pontes, muita tinta inutilizou montanhas de papel, assim como muito sangue escorreu das feridas ganhas numa guerra aonde quem vai dá e leva. Aprendi que, mesmo na Igreja, como escreveu o Padre Lebret, é preciso estar preparado para sofrer perseguição até da parte dos santos. Oh! Aprendi muito, tanto quanto ensinei. Só não aprendi a pegar no Fogo sem me queimar.
Nunca quis saber de outra obra que não fosse a obra da Palavra. Terei ainda alguns anos de vida, mas do primado pastoral da Palavra não abdico. Passei a vida a juntar pedras, pedras-vivas bem entendido. Escrevi montanhas de folhas que nunca colecionei, pois sempre as quis espalhadas ao vento. Fiz milhares de reuniões, de casa em casa, de rua em rua, pastoral de rua. Construí barracos, muitos barracos, tendas de reunião. Duma só coisa quis saber entre eles, os homens meus irmãos: de Jesus Cristo. Por causa dele fiz muitos amigos e muitos inimigos, nunca por questões de gostos ou de cores, por aquela simpatia ou antipatia que costuma aproximar ou repelir as pessoas umas das outras. As questões que tive com as pessoas foram sempre teologais, mesmo quando as tive com quem nunca imaginei que as pudesse ter! Mas à Palavra dei toda a minha vida. E continuá-la-ei a dar. Não foi ela que criou o Céu e a Terra? Não é ela que recria o Homem, em Cristo e na Igreja? Todos os dias vejo os milagres que a Palavra faz, não por repetição, mas por atuação, ação da Palavra. Todo o meu trabalho paroquial começou e acabou assim. Quando me sento na Cadeira para ensinar, estou no meu lugar, e quando vou para o Altar sinto a Igreja a palpitar de Vida, seja a assembleia pequena ou grande, a dois ou a três, a mais ou a muitos, constituída por velhos ou por gente analfabeta. Nunca reservei as questões difíceis para gente capaz, ainda que tivesse que partir o Pão em pedaços muito pequenos e até de os mastigar primeiro na minha boca como as mães fazem com os filhos pequenos. Apesar da minha admiração por tantas bocas de ouro cujas leituras me deliciam nos meus noturnos, só tenho um modelo para a minha forma de ensinar: Jesus, o modelo de todos os presbíteros. Neste momento sou um simples capelão, e faço a experiência fascinante de exercer o meu ministério presbiteral num espaço não necessário, o que me exige um esforço teologal de aprofundamento do lugar de uma pequena capela no centro e nas encruzilhadas da vida da Cidade. É impossível em poucas linhas desenvolver desde o Acolhimento ao Encontro as maravilhas da Graça, e… como é visível, apesar da invisibilidade do fenómeno, a multidão que está a regressar à Igreja. Nas profundezas deste país estão a acontecer coisas muito importantes. Gostaria de falar da minha redescoberta do Confessionário, não como móvel, que há muito tempo deixei de usar. Mas como espaço vivo, não assoberbado, antes tranquilo, terapêutico. Não para dar absolvições a esmo, mas confessionário tal e qual, lugar da Confidência e do Conselho, um lugar tranquilo, sem pressas e sem bichas…
Não somos sucessores dos sacerdotes do Templo, muito menos sucessores dos sacerdotes pagãos. Chamem-nos padres ou sacerdotes [a questão nominal é pouco importante], nunca percamos a consciência da nossa dignidade de presbíteros, ministros que presidem, em nome do sacerdócio singular de Cristo, em nome dele e à maneira dele, às assembleias sacerdotais de um Povo de Sacerdotes. Eis a Assembleia, eis a Comunidade, eis os muitos irmãos e irmãs que o Senhor nos deu, eis a razão de ser da nossa vida presbiteral, e até do nosso celibato. Eu sempre vivi em mesa comum com muita gente. Não sou monge. Sou presbítero da Igreja. Não foi para viver à parte uma vida a sós. Nunca andei de casa em casa, mas onde estive aí sempre fiz casa com muitos irmãos e irmãs em mesa comum, não em cama comum segundo os meus adversários. Não fiz convento, pois sou padre secular. Fiz a casa e pus a mesa e chamei os irmãos e irmãs que fiz, que o Senhor me deu. Casa que se pode desfazer aqui e fazer acolá, pois a gente move-se como a vida, e é livre para entrar e para sair, como para voltar. Mas a minha paixão são os que não têm ninguém e só me podem ter a mim, desde o Bairro da Sé à Capela de Fradelos. Foi assim que reencontrei os pobres que tanto me fascinaram na minha infância cristã, que tanto me honram ao sentar-se à minha mesa. Fraternidade responsável, pois nunca tive vocação para obras sociais.


P. Leonel Oliveira
“Padres para este tempo” [atas do simpósio], Porto, Comissão Episcopal do Clero Seminários e Vocações, 1994, pp. 87-89; “Duma só coisa quis saber”, Maia, Cosmorama Edições, 2013, pp. 27-30.