“Nunca nenhum homem viu Deus” [João 1, 18]. Deus, o verdadeiro, único e vivo, é conhecido como desconhecido, razão por que toda a representação material ou mental é idolátrica, falsa e enganosa. Em Atenas, no areópago, ao procurar uma plataforma grega para evangelizar, Paulo dirigiu-se ao altar dedicado ao ‘deus desconhecido’ [Atos 17, 22-23]. “Deus não está longe de cada um de nós”, disse Paulo aos gregos, “pois nele temos a vida, o movimento e o ser, assim como disseram alguns dos vossos poetas: ‘porque também nós somos da sua raça’” [Atos 17, 27-28].
Mudaram-se os tempos e mudaram-se os costumes. Converteram-se os gregos e os romanos, os celtas, os germanos e os eslavos. Converteram-se à religião dos “adoradores em espírito e em verdade”, quebraram os ídolos e meteram no inferno todos os seus mitos, mas da cabeça nunca chegaram a tirar Zeus ou Júpiter, pai dos deuses e patrão dos homens. De tal maneira não tiraram que, chegado o século do ateísmo, as provas dos ateus contra a existência de Deus são todas contra Zeus. O retrato que Guerra Junqueiro lhe faz em ‘A velhice do Padre Eterno’ é a mais fiel caricatura de Zeus: velho tonto, tirânico, brincando com as vidas dos homens como se fossem marionetas. Guerra Junqueiro, como todos os ‘desesperados’ ateus da sua geração ou da nossa geração seguinte, não podia ter na mente o ‘Deus desconhecido’. Primeiro, porque não lhes caberia na cabeça; segundo, porque de facto nunca o conheceram. “Nunca nenhum homem viu Deus: o Filho Único, que voltou para o seio do Pai, foi Ele que o deu a conhecer”.
Não se pode ter dúvidas ou negar quem nem sequer se conhece. E as provas da existência de Deus, por A + B, produto dum silogismo ou duma equação, valem tanto como as provas da negação. O deus duma equação, o deus dos filósofos, é objecto não tão abjecto como os deuses das Nações, mas não passa dum objecto carregado de adjetivos…
Deus é conhecido em Jesus Cristo. Ninguém o procurou para depois dizer que o encontrou, como um objecto perdido. Essa apologética de “Deus existe, eu encontrei-o” [Frossard] é de bolso, de trazer por casa ou ao pescoço e, quanto se sabe, nunca converteu ninguém, muito menos um ateu. Os únicos que ajudaram os ateus foram como Teresa d’Ávila, que comoveu e moveu a Jovem ateia Edith Stein. É o testemunho daqueles que foram encontrados por Deus em Jesus Cristo. Um homem perdido e encontrado é mais eloquente e convincente. “Eu era cego e agora vejo!” “Quem foi que te abriu os olhos?” “Mas tu eras cego de nascença?” [João 9, 11-38]. “Foi para um julgamento que eu vim a este mundo: os cegos veem e os que tinham os olhos abertos ficaram cegos” [João 9, 39].
O que é verdade e o que se sabe, é que Deus encontrou-nos em Jesus Cristo. Diz Santo Agostinho: “Não te teria procurado se não me tivesses encontrado!…”.
O mistério de Deus é absoluto, como absoluto é o nosso monoteísmo, que não se modificou depois que Deus, o nosso-Deus, único, vivo e verdadeiro, se manifestou no seu Verbo que se fez Carne, o Cristo Jesus, Filho de Deus e Filho do Homem, e se deu, se derramou em nossos corações pelo Espírito da Verdade.
Não há dois deuses, nem três. “Eu e o Pai somos Um”, diz o Verbo de Deus, que nós conhecemos no homem Jesus, “como Filho, único, cheio de graça e de verdade”. O outro Paráclito, “que o Mundo não pode receber, porque não o vê nem o reconhece, mas que vós conheceis, pois está junto de vós”, foi derramado em nossos corações, ele que falou pelos profetas, no qual todos fomos batizados e confirmados. Santíssima Trindade é Santíssima Unidade, pois o Verbo, o Filho, é uma relação, como relação é o espírito santo, Espírito da Verdade. Pela Graça e pela Verdade entramos nas relações de Deus, razão por que a nossa religião [relação a Deus] é outra, inteiramente nova, Novo Testamento, Religião Católica.
Não andemos mais a falar do Deus de Jesus Cristo com Zeus na cabeça, nunca mais com Cupido no coração. A trindade não o divide nem o multiplica. A Religião Católica não possui panteão. Nós não tiramos os ídolos para ali meter os santos. Acabemos com os antropomorfismos, purifiquemos o nosso imaginário com as águas do nosso Batismo. Igreja aberta não quer dizer feira, como Igreja unida não quer dizer fechada e insensível às dúvidas e ansiedades deste século.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 70 | Voz Portucalense, 28 de maio de 1987
Pintura: Caravaggio [1571-1610] | ‘Vocação de São Mateus’ [1599-1600]