O P. Leonel Oliveira morreu há dois anos, no dia 2 de novembro de 2015. Recordamos aqui a reflexão de José Rui Teixeira, pronunciada nesse mesmo dia, na vigília de oração, na Igreja Matriz de Freamunde:

Hoje morreu o P. Leonel Oliveira, na mesma casa onde nasceu há 81 anos. Presbítero da Igreja, intelectual admirável, viveu a sua missão apostólica como um exercício de inteligência da Fé e de ciência da Esperança. Foi um humanista cristão e um cristão humaníssimo, uma voz singular e profética na Igreja do nosso tempo.
Num dia como o de hoje é grande a tentação para o elogio fúnebre. E temos tantos e tão bons motivos para o seu elogio fúnebre. Mas não… hoje não, não seria do seu agrado esse exercício de convenção que dedicamos àqueles que nos morrem. Neste dia em que a Igreja lembra com particular comoção aqueles que já partiram deste mundo e que Deus acolheu na luz da sua presença, fomos informados de que o P. Leonel partiu deste mundo e, por isso, aqui nos reunimos com a consciência de que Deus o acolhe na luz da sua presença.
Há alguns anos que sofríamos com o seu sofrimento, com a consciência de que se dissipava nele uma Luz que nos iluminou o Caminho, uma Luz que não era sua, mas de que era mediador; uma Luz que era sua na medida em que a guardava [como quem guarda o Futuro] e que já não era sua porque a partilhava. O P. Leonel mediava a Luz de Deus como quem partia o Pão e anunciava o Evangelho como quem mediava a Luz… uma Luz que iluminava e aquecia. Não, não se trata de um elogio, mas de uma evidência para aqueles que com o P. Leonel partilharam um quotidiano que tinha uma densidade sacramental e teologal: é verdade… a sua vida permitia-nos uma consciente e progressiva identificação com Cristo.
Não quero que a afirmação de que se tratava de um homem apostólico soe a elogio. Na verdade, trata-se de uma consequência de ter assumido profundamente não só o seu múnus presbiteral, mas fundamentalmente a sua tão profunda consciência batismal, crismal e eucarística.
E não quero que a afirmação de que se tratava de um homem profético soe a elogio. Na verdade, trata-se de uma consequência de ter escolhido dedicar a sua vida à Palavra, de se ter emprestado incondicionalmente ao Evangelho, sem abdicar da sua liberdade nem apanhar as migalhas de protagonismo que saciam vaidades e ambições. O P. Leonel não desperdiçava um feixe de Luz, nem perdia uma só sílaba da Palavra que Deus o chamara a anunciar.
Também não quero que a afirmação de que se tratava de um homem santo soe a elogio. A santidade não era para o P. Leonel um estatuto, mas uma vocação, à qual foi respondendo afirmativamente durante toda a sua vida e não com menos intensidade nesta última fase, em que uma doença silenciosa o foi privando de memória e discernimento. Mesmo doente, o P. Leonel foi igual a si próprio: expressão comovente do amor de Deus.
Não se trata de um elogio fúnebre, muito menos de um discurso com pretensões hagiográficas. Ainda que me sinta profundamente abençoado por ter partilhado a sua experiência de santidade, não me sinto particularmente tentado pelo brilho da glória dos altares. Como escreveu o P. Américo: «Não são as coisas que se sabem dos homens de Deus, que os levam à glória dos altares. O melhor não se sabe. Eles não o disseram.» Caminho tantas vezes de agruras e asperezas tantas que conformam os homens a não desejá-lo.
Mas foi assim que o vimos: um homem comprometido com a vocação universal à santidade, um homem comprometido com a economia da salvação, um homem comprometido com aqueles que Deus lhe confiava, um homem comprometido… E ele, que nunca abdicou da liberdade dos Filhos de Deus, definiu-se muitas vezes a si próprio quando nos alertava para sermos alegres e corajosos, simples e desassombrados.
Neste dia 2 de novembro de 2015, dói-nos a sua perda. Não porque fosse jovem, nem porque fosse a sua morte inesperada… mas porque sentimos que estamos mais pobres, menos iluminados. É com o coração puído e cinzento que o digo. Mas o luto não vai impor esta dor, porque a morte é mentira e porque Deus é incomensuravelmente maior do que a saudade que a sua perda nos deixa.
Recordando com gratidão comovida a sua vida, ocorrem-me as palavras de Raul Brandão: «Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra. Não sei – nem me importo – se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espetáculo desabalado da vida.»
E se este não é um elogio fúnebre, pode bem ser um exercício de gratidão. Como se lê num poema de Herberto Helder: «Começa o tempo quando se une a vida à nossa gratidão.» Em nome da comunidade da Capela de Fradelos, no Porto, onde o P. Leonel foi capelão desde 1991, venho aqui dizer a Deus com o coração incendido que lhe estamos gratos por nos ter emprestado o P. Leonel e agradecer ao P. Leonel por se nos ter emprestado por vontade de Deus. Nesse sentido, hoje não termina a vida nem começa a morte, mas recomeça o tempo.


José Rui Teixeira
Igreja Matriz de Freamunde | 2 de novembro de 2015
Imagem: Andrea Pozzo [1642-1709], Igreja de Santo Inácio [Roma].