Estamos agora mais livres para fazer da Carta aos Romanos uma leitura que Lutero não foi capaz de fazer, prisioneiro que ficou dum falso problema da Justificação. Repare-se na facilidade com que teólogos católicos e luteranos se entenderam sobre a questão fulcral da Reforma e da Contra-reforma. O pelagianismo difuso que corrompeu durante séculos o otimismo católico e o pessimismo cultivado que vestiu de negro as Igrejas nascidas da Reforma, apesar do “sola gratia” [“só a graça”], parecem definitivamente varridos. Mas as duas pontas, para as quais se empurraram católicos e protestantes, ainda não se procuraram para fazer a reconciliação plena e trabalharem juntas para iluminação das graves questões morais da hora. Desde o divórcio, da contracepção e do aborto, às questões de ponta, as Igrejas não dão um testemunho coerente e unânime. Os protestantes aparecem sempre como liberais e os católicos como intransigentes, o que, de facto, não deriva das suas teologias respectivas [bem pelo contrário!], mas das suas posições político-culturais. Faz-nos falta [oh!, como nos faz falta] a contribuição das Igrejas Orientais, com a sua ‘economia da salvação’. Mas os Gregos parecem tão enterrados, juntamente com os seus tesouros espirituais, e tão crispados nos seus sentimentos antilatinos…
Apesar das aparências, apesar das contradições, entre todas as religiões antigas e modernas a Religião Católica não possui ‘interditos’ e ‘obrigações’ particulares. Esta afirmação só espantará quem da Religião Católica tem um conhecimento superficial e das outras religiões não sabe nada. Atribuir à Religião Católica ‘interditos’ e ‘obrigações’ particulares equivale a atribuir às outras religiões ‘dogmas’ e ‘verdades’. É um duplo erro que gente muito instruída costuma cometer, derivado da atitude mental e do tipo de análise com que se habituaram a encarar religiões tão diferentes. As religiões das Nações [chamadas étnicas] não possuem ‘dogmas’ e a Religião Católica não possui ‘interditos’, pois os que poderiam ter herdado do Antigo Testamento ficaram todos do lado de lá, quando a igreja Apostólica descobriu a liberdade dos filhos de Deus face à Lei [Atos 15, 28] e toda a Carta aos Romanos, como toda a Carta aos Gálatas. A moral da Religião Católica é universalista, toda, única e exclusivamente moral natural, lei da Natureza, pois era da natureza da Lei acabar e dar lugar à “Verdade e à Graça” que nos vieram por Jesus Cristo [João 1, 17] e foram oferecidas a todos os homens.
Possuímos ‘disciplinas’, muitas até, tantas que por vezes os concílios têm de proceder a uma monda. De facto, não são tantas como se julga ou como parece. A disciplina do Jejum e da Abstinência é quase inexistente agora. A disciplina penitencial está tão facilitada que quase já nem se reconhece. A disciplina cultural da Missa Dominical, qualquer motivo sério a dispensa. A comunhão pascal só no século XIII foi preceituada, no Concílio IV de Latrão. Possuímos ‘disciplinas’, a que nos obrigamos por obediência, pois vivemos em Igreja, isto é, em Assembleia, em Comunidade. São ‘disciplinas’ que visam a harmonia eclesial e o bem da Comunidade, mas ‘disciplinas’ que variam muito conforme os tempos e os lugares, o que faz com que os ‘religiosos’ do sítio digam que os Padres andam sempre a mudar a religião. Possuímos ‘disciplinas’ formuladas nos cânones, mas não possuímos ‘interditos’ e ‘obrigações’ particulares que obriguem “sempre et pro semper” [sempre e em todas as circunstâncias]. A nossa moral não é uma moral de ‘interditos’ e ‘obrigações’ particulares. É a moral do Bem. Do Bem que se identifica com o Bom. Não temos interditos alimentares, que são uma constante em todas as religiões. Nem temos proibições especiais. A única coisa que não podemos fazer é o Mal, porque é mau para nós e para os outros. A única coisa que nos é mandado fazer é o Bem. Todas as nossas categorias morais são universais. E toda a liberdade que a Graça nos conseguiu e/ou nos promove é fazermos o que queremos. Sim, porque o pecador é, por definição, aquele que faz o que não quer, apesar de julgar que quer o que faz?… “Ama, e faz o que quiseres”, diz Santo Agostinho. Trata-se de amar com Amor, aquele Amor que encarece o outro e que se chama Caridade [de Ágape], pois é ele que faz a Casa, põe a Mesa, e abre a Porta. Amor que é Graça, a Graça que salva a Natureza, que não a substitui, mas salva; que não a anula, mas eleva. A única diferença da nossa moral — e que nos caracteriza — é que as virtudes morais universais são objecto de salvação pela Fé, pela Caridade e pela Esperança. A Fé dá um objectivo à justiça, “a Fé me justifica”. A Caridade impede a justiça de se tornar justiceira e vingativa, pela capacidade que dá de perdoar, de justificar. A Esperança faz-me esperar “até que venha o Senhor”…


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 63 | Voz Portucalense, 26 de março de 1987
Fotografia: Interior da Basílica de San Miniato al Monte [Florença]