A igreja foi retirada ou retirou-se do campo político ao nível da sua hierarquia. Para lá manda agora os leigos, os seus leigos. Parece que é irreversível aquela retirada. Se são claras as razões desta missão, o mesmo não se pode dizer dos meios, pois que os leigos quando ali chegam fazem o que faria outro qualquer. Prestes a chegar aos fins do século XX e já na soleira do terceiro milénio, temos dificuldade em perceber como se dará, em modos forçosamente diferentes do passado, a conversão das Nações — como entrarão no Reino de Deus as realidades temporais.
Não precisamos de nos chegar às luzes de Paris para esboçar uma leitura cristã da Política. Lá como cá… temos diante de nós a nossa pátria, com os mesmos problemas, as mesmas incógnitas e as mesmas tentações. Aliás, toda esta problemática é comum aos países católicos, nascidos da Contrarreforma, seja a Itália, a Espanha ou a Polónia. Nos países protestantes, nascidos da Reforma, persistem os abencerragens dos reinos cristãos que, à semelhança de Bizâncio, mantêm no tabuleiro os bispos da Igreja, entalados entre o rei e a rainha, os cavalos e as torres, onde já não jogam nem enviesados, reduzidos a simples figuras decorativas da corte e/ou da classe. Nestes reinos cristãos dos países nórdicos são os cristãos que fazem esforços para se retirar, ao contrário do que aconteceu nos países católicos, onde foram violentamente retirados.
Aqui ou acolá houve e há a tentativa dos democratas-cristãos na procura duma presença ou duma conquista do Poder no campo político, pela via partidária. Mas parece que não passará por aí a missão laical. Todo e qualquer agrupamento político dos cristãos seria antiecuménico, muito pouco católico, até pouco democrático, sobretudo nos países de maioria católica, onde se poderia repetir o cenário dos reinos cristãos sob forma democrática… com todas as hipocrisias e mentiras dum sistema gasto e estafado.
Voltemos a Portugal. São agora outros os pedagogos neste país de brandos costumes. Ainda bem, tanto pior ou tanto melhor, pois que não souberam [ou não quiseram] guiá-lo nos caminhos da liberdade dos filhos de Deus aqueles que durante muito tempo pontificaram nas cátedras do saber e do poder. Não foi por falta de tempo, pois ainda há bem pouco tempo os vimos — cinquenta anos é muito tempo! — a cultivar a intolerância desde Lisboa às aldeias de Portugal. Eram católicos — há quem diga que não eram, mas de facto eram católicos de longa data! — aqueles que governaram e dirigiram a nossa pátria. Há quem os queira outra vez no Poder, mas está provado que o Poder lhes fez mal, muito mal a eles, a nós e aos outros. Pode ser que lhes faça bem um longo jejum do Poder, enquanto esta ‘minoria’ que nos governa oscila e vacila numa terra que lhes é estranha… Estranha ‘minoria’ que tem pelo menos o mérito de fazer o que nós não fomos capazes de fazer: impôs o respeito pelos direitos do homem! São eles próprios que dizem que o país real sempre lhes escapa. Mas a sua dificuldade é exatamente a mesma dos seus pais e avós, ‘estrangeirados’ numa terra cuja ‘alma’ nunca compreenderão. A estranha ‘minoria’ que nos governa, democraticamente, desde a boca das urnas aos media onde pontifica uma ‘intelligentsia’ também minoritária que, desde Lisboa, trata todo o País como se fosse uma colónia, tem o grande — supremo — mérito da legitimidade. Em política ‘quem pode deve’. Não recebe ela da ‘maioria’ cristã e católica deste país toda a legitimidade, todo o poder? Até em relação ao PCP, não são votos cristãos que lhe dão os lugares que tem? E ninguém diga que os cristãos andam enganados. Em política, como nos negócios, só é enganado quem se deixa enganar. Não é verdade que basta alguém na ribalta política afirmar-se cristão para perder os votos da ‘maioria’ cristã? Entre um homem competente auto-declarado agnóstico e outro homem competente auto-afirmado cristão, os votos vão para o primeiro. Em Portugal os católicos parece que não gostam de ser governados por católicos. Lá terão as suas razões.
Um dia, os católicos voltarão ao poder — é óbvio! —, mas então não será como dantes, pelo menos até que tenham aprendido que a liberdade dos filhos de Deus é um direito histórico constitutivo para todos os homens, vocação universal sem reservas. ‘Intolerância católica’ é contradição nos termos.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 72 | Voz Portucalense, 25 de junho de 1987
Imagem: Planisfério de Cantino [1502]