Mais importante do que respostas ou interpelações nos palcos das publicitações ideológicas e do que os apelos lançados à indiferença geral será uma inteligência da fé que se recolhe para pensar a realidade que se olha e capaz de agir nos campos abertos às culturas da esperança. De resto, não vale a pena. Não que a alma seja pequena. Pelo contrário.
Naqueles palcos pomposos e efémeros a publicidade alimenta-se da fulanização e da fabulação. Vaidade das vaidades, é tudo vaidade logo que aparece. Então a nós, as luzes da ribalta não nos ajudam nada. Dão-nos um ar fantasmagórico que não tem nada de epifania. Deixemos os palcos aos comediantes e… aos bobos. Estes sim, estes têm ali o seu lugar: para divertir e advertir, à sua maneira. É preciso cuidado com os media. Atenção não é medo, mas ‘constar’ não é sinónimo de ‘ser’ e ‘estar’, nem sempre. Desde os grupos e comunidades às paróquias e dioceses, desde os ‘carmelos’ às universidades, não há nada que substitua as correntes renovadoras dum pensamento profundo e recolhido, comunicativo e comunicado por si mesmo, por força de si mesmo e pela luz de si mesmo. Aos palcos iremos na hora do testemunho, para que a Verdade seja provada. Nessa hora não recusaremos ser levados e elevados.
Tudo isto vem a propósito de Edith Stein que, no silêncio do Carmelo e na eloquência dos círculos fraternos, soube cultivar e exprimir um pensamento muito rico e muito consequente para o esclarecimento das grandes questões do século, as suas reflexões sobre pessoa e sobre comunidade. Diante do colectivo a degradar-se, de dia para dia, em massa, ela soube pensar e dizer que só em comunidade “os indivíduos estão abertos um ao outro e as tomadas de posição não ricocheteiam de um para o outro, mas penetram em cada um e provocam-no a agir pessoalmente” [citada em ‘La Loi du Christ’, de B. Haring, pág. 117]. Tudo isto também vem a propósito duma grande incapacidade que nestes dias temos demonstrado em resistir à onda avassaladora dum neoliberalismo descarado e cupido que, a pretexto de relançamento económico, se prepara para privatizar a economia e já reclama a reentrega dos velhos privilégios. De facto, ‘privado’ e ‘privilégio’ são parentes [‘privilegium’, de lei; e de ‘privatus’, privado]: lei privada, a lei a favor de pessoas privadas. A privatização da economia é fautora das maiores privações. Grande defensora do direito à propriedade, desde Leão XIII, a Igreja — embora lutando contra os socialismos colectivistas — sempre deu a toda a propriedade uma dimensão social. Passados de moda os modelos colectivistas, João XXIII mais tarde não temeu falar de socialização dos bens da propriedade. Era por aqui que era preciso continuar: continuar a aprofundar o conceito tornado cristão de propriedade, entrelaçado com o de pessoa e de comunidade. Como é que se pode chamar privada a uma empresa de qualquer coisa iniciada por uma pessoa que logo agrupou e interessou outras pessoas, e que se tornou uma fonte de riqueza para a comunidade? E uma propriedade que diz respeito a muitas pessoas, mas não é privada, não pode sê-lo, tenha a estrutura que tiver ou o estatuto que se convencionou. Não é estatal, mas também não é privada. É bom que o Estado não lhe ponha a mão, pois onde o Estado põe o pé não nasce erva. Mas é bom que se saiba que, atingida a dimensão de empresa, aquela iniciativa ultrapassou a primeira pessoa do… singular. Há uma comunidade de trabalho e há a comunidade maior onde aquela se insere, e é preciso que se façam leis a defender a iniciativa e a impedi-la que desfaça com uma mão o que fez com a outra. Ninguém é dono e senhor de iniciativas que implicam outras pessoas. Aplique-se, ao menos, o código… das estradas!
Não é famoso o domínio da lei. Nunca o foi. Que o diga a Casa de Israel!… Mas onde a graça ainda não pode ser o regime, ao menos aí vigore a lei. Os anarquistas ainda não descobriram, ao fim de tanto tempo, que as suas ideias levam em linha recta ao capitalismo? Aliás, o capitalismo é o único regime anarquista que se conhece. Há também um outro bem conhecido, mas esse é o da miséria, onde guardado está o bocado para quem o há de comer: Mammon ou o partido único, possuidores ambos dum estômago insaciável.
Graham Green deu-lhe agora para esperar dos cristãos a revolução que os marxistas não conseguiram. Graham Green está velho e já vê mal, o que não admira. Admira é esta preguiça que nos deu diante de tantos ‘materiais’ à espera dum pensamento teológico coerente, à espera daquela esperança que tanto mundo já desespera.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 68 | Voz Portucalense, 14 de maio de 1987
Imagem: desenho de Andrea Palladio [1508-1580]