As gralhas tipográficas fazem-nos dizer o que não dissemos, mas podem ser ocasião dum maior e melhor esclarecimento. No n.º 68 escrevi: “Aos palcos iremos na hora do testemunho, para que a Verdade seja provada”. A gralha disse: “aprovada”. A Verdade precisa de ser provada. Isso lhe basta. Para ser quem é não precisa do aprovação. Se isto é verdade acerca da Verdade, com mais razão o é acerca daqueles que a testemunham. Nossas provas provações raramente nos trazem a aprovação geral. Jesus foi ao ponto de afirmar que “muitos nos tirariam a vida, pensando com isso prestar um serviço a Deus”…
Anda o ensino da Igreja em grandes provações, sem muitas aprovações. O que aconteceu à ética da propriedade, nos dias de Leão XIII, está a acontecer à ética do sexo. Todo o mundo nos desaprova. Para além de algum ridículo que, mal-grado, nós carregamos por via dos infalibilismos e métodos de mau gosto e de má memória, fundamentalmente o ensino da Igreja sobre o sexo assenta em valores naturais raramente aprovados nos ‘palcos’ da opinião pública. É um facto, por mais contraditório que pareça. A Igreja defensora dos valores da carne: quem diria? O jornalista do Le Monde, num comentário feito há algumas semanas, formulava muito bem a posição da Igreja nestes termos: “Depois de não aceitar sexo sem o menino, a Igreja recusa agora menino sem o sexo”. A questão sexual é muito complexa e os seus valores naturais não podem ser isolados dos outros valores também naturais. O ensino da Igreja está longe ainda de ser completo. As afirmações isoladas de uma qualquer autoridade, por mais altamente colocada que esteja, podem interpelar e precipitar as questões, mas sem a unanimidade não há na Igreja ensino recebido, doutrina comum. Os ecos não são unanimidade. No último concílio e no sínodo sobre a família viu-se claramente que a unanimidade não é uma coisa tão fácil como uma simples ‘instrução’ romana dum dicastério. Ora, sem unanimidade não há doutrina da Igreja como tal. Os valores morais são valores de princípio e, apesar das aparências, o que nestes dias está em questão são os princípios muito mais do que a casuística, razão por que não devemos ser tão prontos em concluir e em condenar. O dicastério romano para a Doutrina da Fé [ex-Santo-Oficio], depois da publicação da dita ‘instrução’ viu-se na necessidade de logo prevenir os apressados… que se queriam mais papistas que o papa.
A humanidade já tão manipulada pelos ‘poderes’ e ‘teres’ deste século, corre agora o perigo duma manipulação completa à medida que os saberes da mão de quem os sabe passarem para a mão de quem os há de ter e poder usá-los conforme quer: “Sereis como deuses!”. “Admirável mundo novo”… não é a meta sonhada pelos feiticeiros e pelos seus aprendizes?
As questões acumulam-se. Estamos a chegar àquele momento em que, por respeito de si própria, a Igreja no vasto corpo da sua realidade, hoje à escala do mundo, não pode por muito tempo deixar a pluralidade e a complexidade de tantas a tão graves questões acumularem-se sobre a secretária de simples dicastérios. Noutros tempos, em que a Igreja não tinha o tamanho que tem hoje, as questões e o seu debate corriam e percorriam o corpo da Igreja, até chegar a uma unanimidade real, não teórica ou oficial. Quanto mais agora! É que não bastam respostas. Tão importantes como as respostas, são os modos das respostas. O trabalho, paciente e tenaz de algumas conferências episcopais, sobretudo os seus métodos de consulta e formulação, poderiam sugerir aquelas mudanças e reformas que esperamos desde o Concílio Vaticano II. Não continua por fazer a reforma da Cúria Romana?
Não é preciso escavar mais o abismo que separa a hierarquia e os leigos. Daqui a pouco, sobretudo na questão sexual, voltaremos à situação anterior, onde os únicos que podiam comungar na Eucaristia eram os padres, porque os leigos estavam todos em pecado mortal. Protegidos pelo celibato, aqueles não estavam sujeitos aos pecados sexuais. Os inquéritos e as sondagens são eloquentes: a imensa maioria dos cristãos, que são leigos, não põe em prática a doutrina da Igreja sobre a sexualidade. Alguma coisa não funciona nestes dias na Igreja. “Alguma coisa está podre no reino de Dinamarca!”…


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 69 | Voz Portucalense, 21 de maio de 1987
Pintura: Hieronymus Bosch [c.1450-1516] | detalhe do tríptico ‘O jardim das delícias terrenas’ [1503-1515]